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setembro 15, 2005

Estivalia # 9. A oriente do possível...

CabanasMadrugada 20050830 040.jpg
Madrugada de 30 de Agosto. Cabanas de Tavira.


Um ponto.
Infuso, anónimo.
Instante fugaz
em que se organiza
a insurreição
litoral.

A madrugada
cede
à tentação da apoteose
e ofegante
ensaia
uma nudez de estrelas.

Um friso iridescente,
sussurro cavo, maiúsculo,
confunde
a superfície oblíqua.
Código rubro
de hálitos e desmaios,
tensão pulsante
a oriente do possível,
instaura,
estival e precária,
outra gramática
do olhar.

Publicado por Jorge A. S. às setembro 15, 2005 03:40 PM

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Comentários

Trataste a fotografia?
Falas em «outra gramática do olhar» (risos).
Tu agora só me fazes lembrar versos, mas estes vou adaptá-los: «Tu erguerás a cortina/E agora, eis,» se a janela se abrisse/«Aranhas quando as mãos teciam a luz/Beleza palidez a insondável» cor (...) «o belo fruto da luz». Apollinaire

Publicado por: legendas em setembro 15, 2005 09:05 PM

Vamos por partes.

Foi a maquineta quem "tratou" mas com as minhas regras (o máximo de abertura para um 1/30 de diafragma...). Seis e meia da matina, sem tripé e teimosamente evitando o automático...tomada de vista rente à ria - meio palmo da altura, se tanto - que, como imaginas estava um espelho, embora isso se veja mal...

Quando vi o resultado, gostei, como um pai gosta de um filho que nasce estrábico, suponho eu...e desde então (30 de Agosto) que a coisa foi macerando até dar nisto...outras gramáticas do olhar...deu-me por aqui...

Que, a um rapaz culto e vivido como tu, eu faça lembrar versos, isso só pode ser motivo de satisfação: para além de me inventares uma genealogia de pesos pesados (Mallarmé, Apollinaire, W. Blake...), "forças-me" a revisitar os clássicos...

Abraços.

Publicado por: Jorge A. S. em setembro 15, 2005 10:57 PM

pois eu não serei um exemplo de cultura, mas amo a sua escrita "lacustre" inserena clara oblíqua transversal ao solar, feita com gestos firmes onde o sonho não sonha. É. gosto a fotografia, ou seja do rapto que fez à madrugada. não entendo NADA de fotografia. só sei gostar. ou não. E gosto especialmente desta. Porque é PINTURAporque foi "raptada" com enorme sensibilidade. majestática. quanto ao mais nada é difuso. é tão insinuante quanto sinuoso. e não estou a jogar com palavras. E deixo aqui o que penso e não noutro lugar porque penso que a matéria que vive debaixo do poema deve ficar à vista de quem aqui vier. Sempre por bem. o JAS não escreve: reinventa a escrita. árdua e docemente. é por esse trabalho de deuses que um Homem se diferencia dos outros homens. boa noite.

Publicado por: Mendes Ferreira em setembro 15, 2005 11:37 PM

...só venho discordar um pouquinho: "(...)eu não serei um exemplo de cultura(...)". Isabel francamente...

Quanto ao seu comentário, fico feliz por ter apreciado a madrugada cabanense nesta proposta atrevida entre a falta de foco e o Noronha da Costa...

Beijos.

Publicado por: Jorge A. S. em setembro 15, 2005 11:45 PM

A "outra gramática do olhar" pede que se modifique a lógica do observar,i.e., que se (re)organize as proposições visuais segundo outra clave.

E que chave é essa? É um " Código rubro
de hálitos e desmaios (...) a oriente do possível".

É este código a que eu vou recorrer para ler a fotografia proposta; uma tradução compatível poderá ser:

dentro de mim, qual arquétipo ignorado, jaz aquela imagem,
que ressuscitará quando o meu olhar for ao encontro da foto tirada pelo JAS. E nesse reviver descubro um sonho de harmonia, um sonho da natureza livre e emancipada.

Publicado por: João Jacinto em setembro 16, 2005 11:48 PM

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