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abril 15, 2005
(Ex)citação # 2

A história de um retrato
Acabo de ler no "O Divino", a propósito de um retrato de Garrett que não o era ("equívoco" só por si excepcional, enquanto matéria romanesca...), um texto superlativo de Jorge Colaço, que passará a figurar no meu livrinho de (ex)citações, pela elegância e pela compreensão que revela da coisa literária (ver post aqui):
"Uma fissura na parede do tempo separa o que é do que poderia ser. É isso a literatura. Um retrato que poderia ser de Garrett usurpou o retrato que sabemos ser de Garrett. O que alimentou esta ficção? O desejo de que fosse Garrett. Mas não o Garrett que conhecemos: um outro que reunisse em si o Garrett que conhecemos e a promessa de um outro Garrett, desconhecido. Um Garrett novo, de óculos. Era uma nova intimidade que se abria. Um Garrett de óculos que, olhando-nos, nos veria, a nós, estimados leitores, também de modo diferente, vendo talvez não o que somos mas o que poderíamos ser, ou ter sido. Vendo bem, poderia ser Garrett. Olhando bem, não poderia ser Garrett. Se fosse, saberíamos que poderia não ser. Sabendo que não é, percebemos que poderia ser. Sabendo que não é, nem se parece com Garrett. Mas não sabendo, que romance!"
Publicado por Jorge A. S. às abril 15, 2005 06:23 PM
Comentários
Arukutipa está uma maravilha! Parabéns!
jc
Publicado por: JC em abril 15, 2005 10:57 PM
Olha quem fala...
Gostei do post sobre a Viena "de Popper e Wittgenstein". Acabei de ler o "Homem sem qualidades", um dos livros da minha vida, sem margem para dúvida. Como não leio o alemão (ainda), tive de ir para uma tradução inglesa recente, que confirmei ser excepcional e como tal à altura do livro. O Musil neste seu livro, para além de nos abrir a porta para a compreensão da Europa Oriental (estando eu a estudar o romeno neste momento, veio mesmo a talho de foice...), retrata genialmente a cidade e as suas contradições.
Karl Wittgenstein? Pensei que era Ludwig...
Abraços e keep up the good work,
Jorge
Publicado por: Jorge A. S. em abril 15, 2005 11:30 PM
Jorge,
Karl era o pai.... que era rico. :-) A casa dos Wittgenstein ia o Brahms e iam regularmente outras celebridades... Por isso Ludwig Wittgenstein tinha uma visão da cultura muito mais natural e sã do que outras pessoas (de toda a gente?): não era fácil impressioná-lo nem enganá-lo copm rodriguices... e não teve medo de pôr em causa o Bertrand Russell nem de continuar por aí adiante a pensar e a investigar por si próprio... Abraços, Jorge!
JC
Publicado por: JC em abril 16, 2005 06:21 AM
Vivendo e aprendendo.
Obrigado pela nota geneológica...
Abraços,
Jorge
Publicado por: Jorge A. S. em abril 16, 2005 01:02 PM