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março 30, 2005
Lusofilia. Identidade de projecto.

"Source Amnesia" (1), pintura a òleo de Nancy Herrington (1995)
Todas as generalizações são abusivas mas pode ser interessante como exercício "pedagógico" traçar e/ou descortinar paralelismos entre o individual e o colectivo, entre a história pessoal e a História dos povos e das sociedades.
Veja-se o caso da amnésia: é um termo utilizado para designar a perda parcial ou total da memória. É quase sempre temporária e afecta apenas uma parte da experiência pessoal, como a memória imediata. As causas vão do trauma psicológico aos danos cerebrais provocados por lesões na cabeça, tumores, acidentes vasculares,etc.
A perda de memória ocasionada por um acidente, seja parcial, transitória, total ou permanente, representa um desafio difícil de enfrentar. Para além de todas as consequências práticas, da recuperação funcional à reaprendizagem das inúmeras rotinas que estruturam o nosso quotidiano, o aspecto mais impressionante destes processos tem a ver com o que constitui a identidade. Quando se perdem ou são afectadas as memórias que nos constroem e nos definem, como nos orientamos face a outrém e ao exterior?
O mesmo parece passar-se com as colectividades. O que acontece quando a memória colectiva dá sinais de falhar porque os mecanismos que presidem ao seu funcionamento colapsam e deixam de assegurar o continuum lógico-histórico-temporal onde se inscreve a acção individual e colectiva?
As causas das perturbações na memória das sociedades podem ser também de tipo traumático, como os grandes conflitos do século XX, prenunciadores da “conflagração universal” que pela sua magnitude o colectivo processa por via do recalcamento e, na melhor das hipóteses, da sublimação. Mais prosaicamente, sabemos também que a história sobreaqueceu e que o excesso de informação e a omnipresença do audiovisual vieram criar um novo paradigma.
Vivemos um défice de sentido e isso explica muitas derivas contemporâneas e toda a sorte de fundamentalismos. Uma das causas deste défice é o esquecimento a que tem estado votada a história. Como pode o colectivo apreender a sua identidade histórica sem estar dotado dos meios que lhe permitem inscrever-se no devir histórico? Neste contexto adquire uma importância fundamental o ensino da História. Este esquecimento está para as sociedades como a amnésia está para o indivíduo com as mesmas consequências desastrosas para a vida colectiva.
Sentimos uma espécie de orfandadade porque estamos cada vez mais "perdidos" e necessitados de um nexo e de uma trama e não os encontrámos ainda neste “sistema-mundo” ( Immanuel Wallerstein) que nos brindou a globalização. De acordo com Márcio Piñon de Oliveira: “(...) esta economia-mundo vem expandindo os limites geográficos do sistema como um todo e mudando, significativamente, a relação das pessoas com o tempo e o espaço.” (ver aqui)
Nas sociedades ocidentais este défice de sentido faz-se acompanhar por uma plétora de narrativas e metanarrativas, audiovisuais e outras, cinematográficas, televisivas e neo-literárias que surgem como um ersatz para o “sem sentido” da contemporaneidade. É significativo que nestas um mínimo de "plot" se faça acompanhar por um máximo de variações segundo o modelo do entretenimento permanente e a estratégia do mínimo de distracção. Para tal, o que funciona faz lei: enredo básico, total intermutabilidade das situações e das personagens e a ficção calibrada ao sabor das audiências.
Voltando ao conceito central de "identidade".
Uma das propostas mais interessantes é a de Jurgen Habermas. Segundo ele, numa democracia liberal, os cidadãos devem ser leais e sentir-se identificados não com uma identidade cultural comum, mas sim com princípios constitucionais que garantam plenamente os seus direitos e liberdades.
Por seu turno, Manuel Castells (in "El Poder de la Identidad") observa que as identidades constituem fontes de significado para os próprios actores, por eles originadas, e constituídas por meio de um processo de individuação, o que torna toda e qualquer identidade resultante de uma construção, que tem como objectivo organizar significados que se mantenham ao longo do tempo, num determinado espaço e num contexto social e político fortemente marcado por relações de poder.
Castells propõe a seguinte distinção entre os processos de construção de identidades (sublinhados nossos):
“ Identidade legitimadora: introduzida pelas instituições dominantes da sociedade no intuito de expandir e racionalizar sua dominação em relação aos actores sociais;
Identidade de resistência: criada por actores que se encontram em posições/ condições desvalorizadas e/ou estigmatizadas pela lógica da dominação, construindo, assim, trincheiras de resistência e sobrevivência com base em princípios diferentes dos que permeiam as instituições da sociedade, ou mesmo opostos a estes últimos;
Identidade de projecto: quando os actores sociais, utilizando-se qualquer tipo de material cultural ao seu alcance, constroem uma nova identidade capaz de redefinir sua posição na sociedade e, ao fazê-lo, de buscar a transformação de toda a estrutura social.” (Manuel Castells, El Poder de la Identidad (The Power of identity), La Era de la Información, Volúmen 2, 1997. Alianza)
Portugal encontra-se numa encruzilhada histórica da maior importância. A deslocação do centro de gravidade da União Europeia para Leste vem acentuar ainda mais a sua condição periférica no concerto europeu. A solução aos olhos de alguns passa pelo reforço da dimensão atlântica da sua política externa e pelo alinhamento com o eixo Londres-Washington. Mas esta orientação estratégica, se seguida de forma maniqueísta e interpretada na lógica do "poder imperial", cria mais problemas do que os que pretende resolver, nomeadamente uma maior isolamento na Europa e um agravamento da nossa "marginalidade".
Portugal precisa de um projecto e este tem de se alimentar de uma saudável reflexão sobre a sua história. A dimensão geográfica não tem necessariamente de constituir um obstáculo intransponível. Não o foi no passado nem tem porque sê-lo agora. Sem saudosismos nem nostalgias de glórias passadas é possível criar um projecto mobilizador que possa congregar vontades em torno de valores comuns e do sentimento de identidade. Este, ao contrário dos excessos de afirmação nacionalista ou étnica pode muito bem ser abrangente e inclusivo. Melhor ou pior, não foi o tentámos que fazer nos últimos séculos?
O "material cultural" a que se refere Castells que outra coisa pode ser senão a nossa memória colectiva, a nossa cultura e a nossa língua? É o que nos distingue dos outros. Não é que sejamos melhores ou piores, somos diferentes. Num mundo que cada vez mais se debate com a mesmidade, a afirmação descomplexada de uma cultura e de uma identidade, independemente das dificuldades conjunturais e geoestratégicas, de uma alteridade portanto, não será sinal de vitalidade e de espírito de conquista? As regras da atracção são no fundo mais um paralelo que podemos encontrar entre o individual e o colectivo: o que é que atrai os indivíduos entre si senão o que cada um tem de irredutível, de inigualável e de único? Nada como uma cura de auto-estima e de "afirmatividade" para captar a atenção virtuosa dos demais...
Publicado por Jorge A. S. às março 30, 2005 11:55 PM