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fevereiro 27, 2005
Lusofobia 2: Contra factos há argumentos?...(A propósito de alguns posts de Jorge Colaço in O DIVINO)1

Em 2 de Fevereiro, Jorge Colaço escrevia em O DIVINO (link):
Leitura e ensino dos clássicos — 2
Volto às dificuldades do ensino e da leitura dos clássicos. No texto anterior tentei dizer, com uma veemência que alguns acharão excessiva, que a primeira dificuldade encontramo-la na má relação (ou na inexistência de relação) dos professores – tomados genericamente – com os textos clássicos.
Poder-se-ia pensar que os programas escolares e/ou o enquadramento pedagógico oferecido pelas escolas deveriam contribuir para que, independentemente da melhor ou pior relação do professor com um determinado autor ou texto, a abordagem das obras permitisse abrir as portas a um interesse dos alunos que transcendesse o mero serviço de avaliação. A verdade é que esse enquadramento – se existisse – só seria eficaz se fosse exigente e verificado, e por tal razão imediamente contestado. De qualquer modo, é na «solidão» da sala de aula que tudo realmente acontece, é aí que tudo se decide.
A segunda grande dificuldade que, a meu ver, se levanta à leitura dos clássicos, e consequentemente ao seu ensino, é a distância que separa a Língua dos textos clássicos da que é hoje comum à maioria dos falantes, jovens ou não.
A língua de uma parte significativa dos falantes, sobretudo nos campos lexical e semântico, que aqui mais interessam, sofreu um assinalável estreitamento ao longo das últimas décadas. Os desvarios no ensino da Língua Portuguesa foram fazendo o seu caminho. Faça-se um estudo comparativo, por exemplo, da linguagem usada nos compêndios escolares ao longo dos últimos 40 ou 50 anos. Comparem-se, por exemplo, as leituras juvenis de 30 ou 40 anos atrás com a literatura feita para jovens dos últimos anos. Compare-se a riqueza vocabular presente nas traduções de Enid Blyton, ou nos livros da «Colecção dos Rapazes» da saudosa Portugália, nas edições da Romano Torres (Salgari incluído), com a simplificação verificada nas múltiplas obras e colecções para jovens que hoje existem.
Falo, entre outras coisas, de infantilização. Da tal infantilização que Maria Filomena Mónica e António Mega Ferreira sublinham ser impossível aplicar em relação aos clássicos. Não é possível – nem desejável – transformar Os Maias em qualquer coisa como Carlos da Maia e o Feitiço da Brasileira, não é possível fazer passar as Viagens na Minha Terra por Uma Aventura em Santarém ou o Frei Luís de Sousa por O Regresso do Exterminador .
O que quero dizer é que um dos motivos mais terrivelmente evidentes para o desconhecimento dos clássicos da literatura portuguesa é a impenetrabilidade linguística que eles crescentemente apresentam ao leitor comum. Mesmo que existisse apetência pela sua leitura (essa é uma outra discussão), a Língua em que estão escritos representa um sério obstáculo. Garrett começou a modelar a face moderna da língua portuguesa, que Eça estilizaria e fixaria. Entretanto, Garrett tornou-se quase incompreensível. Camilo tornou-se quase inacessível. Eça tornou-se praticamente insuportável.
Ninguém gosta de ler saltando palavras, expressões, parágrafos que não entende e se acumulam sem remédio, ou, em alternativa, ler com um dicionário ao lado (e se for uma obra anterior ao século XIX, nem mesmo com dicionário... uma vez que hoje todos os dicionários estão virados apenas para o contemporâneo...). O problema da Língua é, pois, inultrapassável quando se fala em leitura e gosto pela leitura. Pior: só se resolve através da própria leitura.
Bem se pode substituir a leitura de um romance pelo seu resumo, hoje uma prática corrente... Mas, como é sabido, um romance está longe de poder ser reduzido à história que conta. E se, por exemplo, reduzirmos as Viagens a uma história, ficamos com o episódio do Carlos e da Joaninha. Tudo o resto, que é o mais interessante, fica de fora.
Não quero dizer que este seja o único problema existente. Quero apenas vincar que ele é certamente um dos mais básicos e mais inibidores.
Dir-me-ão que, se for verdade o que digo, então esse problema não diz respeito apenas aos clássicos. Pois não, mas nos clássicos ele é mais evidente e mais premente do ponto de vista cultural (e nacional). Estamos a chegar a um tempo em que os clássicos da língua portuguesa apenas são acessíveis a um pequeno número de pessoas. Não por quaisquer razões transcendentes, mas porque a língua do falante comum já não chega para tomar contacto com essa dimensão essencial da nossa identidade.
Jorge Colaço
Caro homónimo,
quando fala em infantilização apetece-me corrigi-lo e propôr "imbecilização" ou já agora, passe a logorreia, "ditadura do gosto médio", nivelamento por baixo, etc...
Salvaguardando algumas, pouquíssimas, excepções, as pessoas que decidem, as que têm sobre os seus ombros a responsabilidade de formular e levar por diante uma política de defesa e promoção da língua e da cultura portuguesas na Europa e no Mundo, demitem-se dessas suas atribuições, por não lhe reconhecerem nem urgência nem transcendência. São os nossos deputados ao Parlamento Europeu fazendo gala da excelência do seu francês ou do seu inglês em reuniões onde, sabe Deus a custo de que esforços, estão disponíveis, intérpretes de português; é o mais alto magistrado do Estado, anglófono de reconhecidos méritos, que em múltiplas oportunidades nos brinda com o pitoresco do seu portunhol, enfim poderia desbobinar até 30 de Fevereiro se fosse necessário...
Quanto ao ensino e da leitura dos clássicos, então aí meu amigo resta-nos ir buscar sustento moral e inspiração aos vizinhos do lado e arremeter, quais Quixotes, contra moinhos e, já agora, contra ventos e marés...
Cordialmente,
Jorge
Publicado por Jorge A. S. às fevereiro 27, 2005 03:38 PM