« Delirium Autumnalis # 2. | Entrada | Delirium Autumnalis # 3. »
outubro 10, 2005
Um "jornal" chamado CRISTINA # 23. Over and out...

"Truro". Acrílico sobre tela. Brian Morrison. 2005.
Cristina, o "Jornal" que criámos conhece hoje a sua derradeira edição. Motivos de força maior levam-me a mudar de formato e de nome. Espero continuar a poder contar com o teu apoio aí de cima, onde tudo é azul e rosa e o sol só se põe por cósmica pirraça. Não desligo sem te falar desta carta maravilhosa ao Garrett, publicada no teu O Divino onde o nosso amigo Jorge Colaço, com a amabilidade que é sua marca, fala no teu encontro com os "manuscritos" do vate. Isto como se já não estivésseis os dois rindo a bom rir das nossas angústias e atribulações e das vicissitudes e amnésias da contemporaneidade.
Over and out...
Carta a Garrett
Caro Almeida Garrett,
Perdoe-me tão directa interpelação, mas creia que não o incomodaria por pouca coisa. Conhece bem o drama de partir, e de partir cedo. De partir cedo demais. Sei, por isso, que entenderá o que tenho para dizer.
O seu nome e a sua obra são ainda venerados nesta sua terra, embora um pouco da mesma forma que os monumentos o costumam ser. Reverenciados, mas na verdade esquecidos, ignorados, e vandalizados. Nada de novo, como muito bem sabe.
Imagine que se descobriram os manuscritos inéditos do seu Romanceiro misturados com outros papéis que estavam em casa de Venâncio Deslandes, na época director da Imprensa Nacional. Podemos talvez imaginar as razões pelas quais o Senhor Deslandes poderá ter levado os manuscritos para casa, mas provavelmente nunca saberemos ao certo a razão de lá terem ficado até a Cristina Futscher Pereira os ter descoberto.
Mas o achado constituiu também um encontro.
A partir desse momento o destino de Cristina Futscher Pereira passou a estar ligado ao destino desses papéis, e Você, meu caro Garrett, passou a estar no centro do seu entusiasmo. Ela pressagiava que aqueles manuscritos eram um sinal da sua boa estrela, e até construiu este pequeno templo, de onde agora lhe escrevo, para nele partilhar as boas novas com todos os interessados.
Mas (quase) ninguém estava verdadeiramente interessado. Bem, houve alguns lampejos de interesse pelos papéis, noblesse oblige, embora frouxos e breves. Não sei, talvez estejamos cansados de ser um País, de ter uma História tão pesada e de tão incerto saldo.
Além do mais, o romanceiro é uma coisa tão out, tão old fashioned - you know what I mean? -, é coisa de um mundo que já não existe, e que por isso já não nos interessa. Claro, é bom que se preserve, alguém que se encarregue de guardar essas coisas. Pode ser que um dia façam falta, sei lá.
Apesar de tudo, o meu Amigo nem tem muito de que se queixar. Apesar do infortúnio pedagógico das Viagens, ainda faz parte do cânone, ninguém lhe impugna o episódio do Mindelo, ainda lhe dão palco nos teatros, o fraque verde, a gravata de cor e o chapéu branco ainda causam um simulacro de furor entre as senhoras. Da sua poesia sobraram as Folhas Caídas (cujo pathos aumenta se se souber da história com a viscondessa da Luz), e a sua eloquência ainda ecoa vagamente no Parlamento. Outros não se podem gabar de tanto.
Mas na verdade pouca gente o lê e, hélas!, cada vez menos gente fala a mesma língua em que Você escreveu páginas tão marcantes.
Adiante. Eu conheci a Cristina por sua causa. Digamos que foi o ilustre Autor que propiciou o nosso encontro. Assim que lhe ouvi os planos, logo a alertei para esperar muito pouco ou nada. Mas o meu cepticismo foi cedendo à sua energia e vontade de suscitar um interesse renovado pela sua figura e pela sua obra, caro Garrett. E a isso eu não me poderia negar.
O resultado dessa colaboração está aqui nestas páginas escritas no éter (o meu caro Amigo perdoará não me atrever sequer a tentar explicar-lhe o que isto é...), mas está também nas muitas cartas que trocámos, através das quais o nosso relacionamento atingiu a patente de amizade.
Caro Almeida Garrett, a Cristina Futscher Pereira morreu.
Partiu cedo demais, como também aconteceu consigo. Com a morte dela, morre também este espaço que ela lhe dedicou, no qual tive a honra e o gosto de participar.
Ele aí - aí? aqui? - fica, como testemunho de como lhe pulsou o coração ao longo do seu último ano de vida. A Cristina fez o que pôde, até já não poder fazer mais. Mas fica também o exemplo, e, quem sabe?, talvez ele frutifique, talvez possa ser retomado. Não é verdade que todos lhe devemos isso?
Cumprido este dever de que voluntariamente me incumbi, despeço-me com a estima e a admiração de sempre.
Jorge Colaço
Post-Scriptum - Se os mortos e os tempos conviverem e se misturarem como acontece na Torre de Barbela de Ruben A., estou certo de que há-de vir a conhecer a Cristina. Peço-lhe que a trate como a uma boa e dedicada Amiga.
Publicado por Jorge A. S. às outubro 10, 2005 08:12 PM
Trackback Pings
TrackBack URL para esta entrada:
http://arukutipa.weblog.com.pt/privado/t.cgi/107590
Comentários
Olha, Jorge, só hoje associei a Cristina, que me chegou a escrever um ou dois mails por causa do Divino, à Cristina. Um blogue de uma grande beleza e sensibilidade.
Abraço.
Publicado por: legendas em outubro 11, 2005 02:44 AM